O impeachment de Dilma, a retórica do PT e o caminho da terceira via

Em 1999 o PT falava em estelionato eleitoral e pedia o impeachment de FHC. O PSDB se defendia falando em assegurar a democracia.

Em 2015 o PSDB fala em estelionato eleitoral e pede o impeachment de Dilma. O PT se defende falando em assegurar a democracia.

É público e notório que tanto PT quanto PSDB, cada um por seu motivo, tentaram acordo com Cunha. O PSDB pulou do barco primeiro e deixou o PT se desgastar com a imagem de “aliado de Cunha”, esse palavrão. Depois foi a vez do PT devolver Cunha pro colo do PSDB ao decidir votar contra ele no Conselho de Ética.

Agora a mídia petista faz a festa. Ontem só no Brasil 247​ em um artigo Dilma foi chamada de heroína, em outro comparada a Jango, e em outro comparada a Dalai Lama (sério).

Enquanto isso Alckmin fecha escolas e desce o cacete em estudantes.

A pergunta é: com ou sem impeachment, o que resta pra 2018?

Em duas entrevistas recentes que deu, Lula repetiu que “o que não pode é negar a política”. Citou a Primavera Árabe e outras manifestações no estilo “não nos representam” e como elas culminaram em regimes ditatoriais.

A mensagem por trás dessas afirmações é clara: você vai ter que tomar uma posição, que escolher alguém. E aí estabelece-se o debate pelo menos pior – pra cada mensalão tem um mensalão mineiro, pra cada petrolão tem uma Alstom, pra cada Bumlai tem um Dantas.

No final, a retórica do PT tenta eliminar a ética como um fator de diferenciação. Esse fator seria, então, quem governa pra quem, quem fica do lado do povo e quem fica do lado das elites. Mas como sustentar esse discurso se na hora que precisou cortar gastos, os primeiros gastos a serem cortados por Dilma foram benefícios trabalhistas? Taxação de grandes fortunas, por exemplo, nem se ouviu falar. Ou seja, nem mete essa.

Das alternativas com possibilidades reais, pra mim o pior dos mundos seria o PMDB no poder, por isso sou contra o impeachment (sem essa de golpe, o que está em curso é um processo de impeachment mesmo, como previsto na Constituição). Mas o segundo pior dos mundos seria a permanência do PT. Não dá mais.

Pras próximas eleições, vejo o PSDB com mais condições que esses dois de retomar o crescimento e acho inclusive que as políticas sociais teriam avanço – eles aprenderam a lição. Em relação à repressão de Alckmin, não acho que Dilma tenha feito muito diferente em Junho de 2013. Conivente com os abusos cometidos pelas polícias, o discurso dela à nação depois que as manifestações explodiram foi muito mais o discurso da ordem do que o da liberdade de manifestação.

Não tem sido falado, mas a propósito, 2013 está muito presente em tudo que está acontecendo agora – a falta de representatividade, o não ter quem escolher, a revolta difusa, as possibilidades futuras. Quem melhor capitalizou tudo isso foi Marina com o discurso “sonhático”. Entretanto, na obrigação de se posicionar durante as eleições, se perdeu. Ainda assim, acredito que ela seja a mais humana dos potenciais candidatos e que faria uma política de centro-esquerda, do possível. Seria minha opção.

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Muita admiração a todas as mulheres que vêm expondo, para o mundo todo, as histórias de assédio que sofreram. Se alguém ainda tinha dúvida sobre o quanto as diferentes formas de assédio contra mulheres são comuns, pronto, não precisa ter…

Brasileiro residente em Berlim. Viciado em música, arte e futebol. Coautor do livro 'D4', de contos e poesias, publicado pela Editora Multifoco, e Marketing Campaign Manager na empresa upday.com