#PrimeiroAssédio: da catarse à mudança

Muita admiração a todas as mulheres que vêm expondo, para o mundo todo, as histórias de assédio que sofreram. Se alguém ainda tinha dúvida sobre o quanto as diferentes formas de assédio contra mulheres são comuns, pronto, não precisa ter mais.

Em todas as histórias, o mais assustador é isso: a naturalização do absurdo, ver que o abuso se tornou comum. E o comum carrega sempre consigo algo de aceitável na mentalidade geral, afinal “todo mundo faz.” Daí vermos em vários relatos as próprias mulheres se sentido culpadas. Saia muito curta? Bebi demais?

Pra não dizer quando o (que muitos entendem como) aceitável transforma-se em desejável. Numa sociedade extremamente machista como a nossa, quem assedia reafirma sua posição enquanto macho e ganha status na tribo. É impossível dissociar do machismo a cultura do estupro e do assédio. Não dar uma abusada de leve (só passei a mão) numa mulher em situação vulnerável é pedir pra ter sua masculinidade questionada. É esse o ponto em que nos encontramos.

Não devemos nos esquecer que a campanha #PrimeiroAssédio foi lançada pelo Think Olga depois da infame onda de abuso virtual contra Valentina, de 12 anos, participante do MasterChef Júnior. Sempre penso que as tão recorrentes piadas sobre negros, gays, mulheres e outros grupos em posição desfavorável servem apenas como um canal – aparentemente inofensivo – pra veicular um preconceito que de inofensivo não tem nada, que é real.

“Preto quando não caga na entrada, caga na saída.”

“Só podia ser viado mesmo.”

“Sentou no meio fio e colocou o pé no chão, tá valendo.”

Outro aspecto da campanha que vale ser mencionado é que ela ressalta o poder das redes sociais como agentes de transformação. Uma crítica constante que fazem ao pejorativamente chamado “ativismo de Facebook” é que ele pode dar uma falsa impressão de ação, na linha do “enquanto você está postando, há gente agindo.”

Essa é uma visão com a qual nunca concordei. Não que o ativismo virtual substitua o ir pra rua, são manifestações de qualidades diferentes, mas que muitas vezes se retroalimentam. A #PrimeiroAssédio ajudou a impulsionar, por exemplo, a manifestação do dia 28/10/2015 contra Eduardo Cunha, no Rio. Tá aí uma consequência bem real de um movimento que começou online. O (ainda?) presidente da câmara dos deputados enfraqueceu-se depois dessa manifestação.

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Talvez o poder das histórias reais de mulheres próximas (ou não) a nós conscientize os homens que praticam assédio.

Também existem aqueles que não o fazem mas que se mantém de certa maneira complacentes em relação ao atual estado de coisas. Outra mudança que a campanha pode causar seria fazê-los sair do armário e também lutar contra o machismo.

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Brasileiro residente em Berlim. Viciado em música, arte e futebol. Coautor do livro 'D4', de contos e poesias, publicado pela Editora Multifoco, e Marketing Campaign Manager na empresa upday.com