Deli Entrevista: Virei Viral

Depois de discutir o fenômeno da viralização e a cultura do compartihamento e ser eleita uma das melhores exposições de 2013, o Virei Viral volta este ano ao CCBB RJ explorando novamente a influência da cultura digital sobre o comportamento das pessoas, desta vez sob o tema “Identidades e Coletividades”. A exposição (que fica aberta até 22/12/2014) traz trabalhos de vários artistas que a partir de diferentes perspectivas dialogam com a questão da identidade, além de também trazer a contribuição do público através da instalação “POLAROIDES (IN)VISÍVEIS AUTORRETRATO”, de autoria de Tom Lisboa.

Pra falar um pouco mais do assunto, conversamos com Letícia Stallone, uma das curadoras do Virei Viral e a quem agradecemos pela entrevista. Confira abaixo!

Dora_Reis_Memorabilia

Antonia_Dias_Leite_MiroirMiroir

– O tweet mais retweetado de todos os tempos foi uma selfie. Uma das maiores estrelas do Instagram é o Mr. Pimp Good Game. Várias teorias já surgiram tentando explicar as selfies: um estudo que viralizou nas redes sociais diz que excesso de selfie está relacionado à falta de sexo, enquanto outro afirma que as selfies, na verdade, têm a ver com baixa autoestima. Pra você existe algum significado por trás disso tudo ou as pessoas tiram selfies porque simplesmente ficou mais fácil fotografar?

Não sei se é possível dizer que o fenômeno das selfies está relacionado à falta de sexo ou à baixa autoestima, mas certamente tem relação com a mudança da natureza da fotografia. No tempo da fotografia analógica, a foto era um instrumento de memória, como dizia Barthes, ela registrava e guardava ‘aquilo que passou’. Hoje, a fotografia (que raramente chega a ser impressa) é uma mídia de troca, registra-se para trocar e não mais para guardar. Num dos textos do catálogo da expo, o crítico de fotografia Geoffrey Batchen diz que “uma fotografia digital a princípio funciona como uma mensagem no presente, (Ei, estou aqui agora, olhando para isso!) em vez do registro de um momento passado”. Depois de muita pesquisa, a curadoria acabou entendendo a selfie como um meio de comunicação, quase um dos lados de uma conversa telefônica.

Michael_Wolf

Kyle_thompson

– Vivemos um momento político efervescente no Brasil. Durante as eleições, alguns jornais noticiaram que pessoas estavam excluindo amigos que tinham opiniões e preferências políticas distintas das delas. Há uma dimensão política na identidade? Até que ponto essa eterna guerra de opiniões nas redes sociais tem a ver com política e identidades pessoais e coletivas?

Há, sem dúvida uma dimensão política na identidade. E pensar em identidade em épocas de mídias sociais é perceber que se trata de um fenômeno absolutamente instável. Mesmo as coletividades que se formam destas identidades estão em constante fluxo, ora recebendo mais ou menos adeptos. A era digital parece amplificar ainda mais essa instabilidade porque protegidos pela dimensão ‘virtual’, os posicionamentos ficam cada vez mais voláteis e inconstantes, por um lado, e extremistas e radicais, por outro.

Trabalho de Bruno Veiga: Facebook Series, Barbie

Trabalho de Bruno Veiga: Facebook Series, Superman

– Na vida cotidiana estamos o tempo todo representando nossas identidades. A partir do momento em que criamos um eu virtual, pode-se afirmar que colocamos mais uma camada de representação sobre nós mesmos. Na sua opinião, qual é a influencia das redes sociais sobre o processo de construção das nossas identidades? Muitos dizem, por exemplo, que a vida no Facebook parece perfeita. Nas redes sociais representamos algo que não somos, apenas a parte que desejamos, ou como isso ocorre?

Esta pergunta me remete diretamente ao trabalho de Bruno Veiga que está na exposição, o ‘facebook series’. Trata-se de uma série de retratos de estereótipos, personagens arquetípicos, como o super herói, a santa etc. Para a curadoria, é um trabalho que se vale do viés do humor para tocar em questões sérias como essa das representações em redes sociais. Pessoalmente, acho que tem de tudo, tanto aquele que conscientemente expõe algo que não é e gostaria de ser, afiliando-se a um partido, a um pensamento etc. quanto aquele que o faz inconscientemente e retrata apenas aquilo que ele percebe como ‘valor’ ao que interessa naquele momento. A filósofa e psicanalista Carla Rodrigues discute num outro texto do catálogo essa questão das identidades no mundo virtual através do fenômeno das hashtags e chega até a falar em ‘identidades vazias’. Veja como ela problematiza a questão: “Perturbador, no entanto, é que essa vida social possa ser resumida a expressões prontas, meros dispositivos aos quais um sujeito esvaziado de subjetividade recorre como expressão de não capacidade de expressão de si, como fórmula pronta de uma engrenagem cujo objetivo é a perda da experiência de se perder na linguagem.”

 

* Todas as fotos neste artigo são de artistas em exposição no Virei Viral.

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Brasileiro residente em Berlim. Viciado em música, arte e futebol. Coautor do livro 'D4', de contos e poesias, publicado pela Editora Multifoco, e Marketing Campaign Manager na empresa upday.com