O impacto das redes sociais em “Hoje eu quero voltar sozinho”

Muito já se falou sobre Hoje eu quero voltar sozinho aqui (na grande mídia e na crítica especializada) e lá fora, além dos prêmios recebidos em Berlim, então prefiro para não chover no molhado falar de como fiquei impressionado não somente pelo filme, mas pelo trabalho dos que geram as suas redes sociais.

Desde o início, a equipe de produção e distribuição, resolveu abandonar aqueles sites tradicionais e “caretas”. Quem entra, por exemplo, no suposto site oficial do filme é direcionado para uma estratégia bacanérrima: O “Não quero ir ao cinema sozinho”, onde você avisa em que cinema e horário vai e convida amigos, contatos e fãs desconhecidos para ter uma companhia.

Um exemplo aleatório de convite gerado e que pode ser divulgado nas redes sociais

Um exemplo aleatório de convite gerado e que pode ser divulgado nas redes sociais.

Se a sua cidade não estiver na lista (ou seja, não está no circuito do filme), você pode preencher um miniformulário para que a distribuidora saiba quais cidades têm mais demanda pelo filme. Aqui é importante lembrar que os tais lançamentos limitados não são “culpa” de uma distribuidora pequena que possui poucas cópias, ainda mais com a exibição digital. São os exibidores mesmo que têm medo de passar filmes que não sejam os grandes blockbusters.

Aliado a este formulário, a distribuidora e o público potencial do filme (em sua maioria fã do curta-metragem Eu não quero voltar sozinho) tem outra arma: as várias comunidades do Facebook que foram criadas pelos fãs para levar o filme a suas cidades, além de ser um local de debate sobre o filme e experiências relacionadas. Muitas já conseguiram sucesso, como a que pedia o filme no Espírito Santo, enquanto algumas ainda estão na luta como a de Taubaté-SP, Ponta Grossa-PR, Porto Velho-RO ou Criciúma-SC. A campanha já ganhou ares internacionais mesmo que o filme pareça estar em direção a uma trajetória tranquila lá fora: chega na França em julho e vai rodar festivais durante o verão americano antes de estrear no fim do ano provavelmente visando, mesmo que ainda seja cedo para falar, uma campanha ao Oscar. Como os fãs do curta são do mundo todo, deve encontrar sucesso por onde passar.

O trio de atores principal do filme, Ghilherme Lobo, Fábio Audi e Tess Amorim

O trio de atores principal do filme, Ghilherme Lobo, Fábio Audi (com cabelos cacheados) e Tess Amorim.

A galera trabalhando na divulgação, conseguiu criar um autêntico espaço para os fãs comunicarem livremente e ainda assim se esforçam em responder post a post as dúvidas do público e informar claramente onde o filme está sendo exibido e porque (ainda) não está em certas áreas. A conta do twitter é outro achado. Não se atendo as tais das hashtags, a equipe busca posts que falam do filme e constantemente os retuíta ou ainda responde, procurando saber o que as pessoas acharam do filme.

É justamente esta proximidade entre equipe do filme (ou o “filme” em si como uma entidade) e as centenas de milhares de fãs do curta (220 mil seguidores no face) que fazem com que o pessoal que já sai do filme encantado continue a falar sobre ele por semanas, tanto inspirando novos espectadores quanto indo rever uma, duas, três vezes, criar perfis falsos e fã-clubes e se deliciar com toda a narrativa criada com tamanha precisão e competência por Daniel Ribeiro.

Mesmo com lançamento limitado (entrou em 33 salas e na segunda semana ampliou para 45), estreou em quinto lugar e agora, mesmo com outros quatro filmes estreando, teve um aumento de renda e de público. Os seus mais de 83 mil espectadores certamente serão um recorde para a Vitrine (que tinha levado 96 mil com O Som ao Redor) e quem sabe chegará nos 300 mil do último grande filme de adolescente a estourar no cinema nacional, As Melhores Coisas do Mundo, de 2010.

Equipe e elenco do filme com o prêmio Teddy de melhor filme queer do Festival de Berlim de 2014. Além dele, o filme foi escolhido o melhor pela crítica da mostra Panorama e ficou em segundo lugar na votação do público.

Equipe e elenco com o prêmio Teddy de melhor filme queer do Festival de Berlim de 2014, um dos três conquistados. Além dele, o filme foi escolhido o melhor pela associação de críticos (Fipresci) da mostra Panorma e ficou em segundo lugar na votação do público

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Formado em cinema depois de passagens por direito e jornalismo, trocou o stress dos sets de filmagem pela luta diária e contínua da preservação audiovisual. Tenta viajar pelo menos uma vez por mês, nem que seja por meios alternativos (leia-se: música e cinema), tentando sempre explorar novos lugares e desafios. Fã de tênis, rúgbi (mais pelos jogadores...), judô, natação e de todos esportes olímpicos, evitando qualquer patriotismo patotado, curte de tudo, de pintura a política, mas são as músicas e filmes que costumam mudar sua vida diariamente. Tenta atualizar com certa infrequência os vários blogs que mantém e os muitos projetos que inicia, como escrever, pintar, fazer colagens e fotografar. Possui o poder de transformar tudo numa lista de melhores.