Outras considerações sobre Nymphomaniac: “masturbação artística”

Nymphomaniac é um filme muito estranho. A princípio promove uma personagem que celebra o sexo livre, o direito de ser quem ela quer, mas ao mesmo tempo martela lições de moral extremamente antiquadas e bestas. A única coisa que a gente realmente aprende no final é que Lars von Trier possui muito conhecimento trivial, de pescaria a matemática. Parabéns, Lars!

LarsVonTrier

A própria ideia de dividir em duas partes não me agrada muito. Parece pura jogada de marketing, para ganhar mais dinheiro, algo feito a partir da experiência de Kill Bill. Mas assim como o filme do Tarantino, ao menos Lars von Trier foi esperto ao fazer o seu com duas partes bem diferentes.

Na primeira temos Stacy Martin encarnando a protagonista até sua adolescência e na segunda Charlotte Gainsbourg assume a personagem de vez. Em comum piadinhas e metáforas super fracas pontuam o filme. Como o recurso da narração é adotado, temos que aturar ainda comentários bestas por parte de Stellan Skarsgård, o interlocutor de Joe. Suas intervenções por mais que possam parecer irônicas são meros artifícios de Von Trier para encher o seu filme de citações pseudointelectuais, mostrando seu talento e sua inteligência.

Martin e sua best apostam um saquinho de chocolates para ver quem pega mais homem no trem. Olha que fofo! Em outro segmento, elas se juntam a um grupo de feministas gritando Mea maxima vulva como slogan. Já na segunda parte ela deve recorrer a um especialista em línguas africanas (???) para se comunicar com dois negões e propor sexo para eles. Tudo parece engraçado, mas soa pedante e masturbatório, e não no bom sentido.

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Depois de todo o papo de sexo, o filme é meio careta. Só Shia LaBeouf se entrega ao papel de uma maneira completa e ele obviamente não é dos melhores. Jamie Bell é o único dos atores que parece se sentir realmente a vontade no filme e brilha em seu papel na segunda parte – e em sua pequena participação na primeira -, único momento realmente bom do filme, ao lado do encontro de Joe (Gainsbourg) com um pedófilo, quando o cineasta dinamarquês consegue realmente construir uma história.

É engraçado que estas duas cenas destacadas por mim estejam na segunda parte, que, salvo elas, é bem risível. O ménage pseudoexótico de Joe que termina antes de começar mais uma vez parece jogada de marketing. E toda a continuação tem um caráter muito mais pesado. A primeira apesar de ter momentos muito ruins como o episódio com o pai no hospital e com Uma Thurman (que começa bem mas depois perde a linha feio) brinca muito com as imagens, o que é algo bem raro de se ver em longa-metragem, especialmente comercial, e tem momentos meio engraçados, mesmo que não intencionalmente.

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O final tem aquela sacada típica do Lars, de querer fazer uma reviravolta e consequentemente estragar o filme todo, tentando encher de uma lição de moral meio nojenta. Compara bem com os últimos filmes dele (Anticristo, Melancolia), também bem vazios de conteúdo, mas que ao menos tinham uma estética interessante, algo que está presente apenas no primeiro. Von Trier virou cineasta de criar polêmica e isso nunca pode ser um bom sinal.

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Formado em cinema depois de passagens por direito e jornalismo, trocou o stress dos sets de filmagem pela luta diária e contínua da preservação audiovisual. Tenta viajar pelo menos uma vez por mês, nem que seja por meios alternativos (leia-se: música e cinema), tentando sempre explorar novos lugares e desafios. Fã de tênis, rúgbi (mais pelos jogadores...), judô, natação e de todos esportes olímpicos, evitando qualquer patriotismo patotado, curte de tudo, de pintura a política, mas são as músicas e filmes que costumam mudar sua vida diariamente. Tenta atualizar com certa infrequência os vários blogs que mantém e os muitos projetos que inicia, como escrever, pintar, fazer colagens e fotografar. Possui o poder de transformar tudo numa lista de melhores.