Nymphomaniac e a acidez de Lars von Trier

Nymphomaniac é incômodo. É doloroso, porque é real. É cru e simples. Tem ruídos silenciosos. E nas cenas em que eu ri, quase tive uma gastrite de tanta acidez. Lars von Trier faz isso comigo: me dá um soco, enquanto faz carinho de leve nos fios do meu cabelo. E como eu saio? Confusa e reflexiva. Que é como eu gosto de sair de qualquer filme.

Nymphomaniac-Posters

O novo filme do polêmico diretor veio antecedido por vários teasers, sendo o primeiro deles as imagens de pôsteres com atores em fundo branco, expressões de orgasmo. Aos poucos, foram divulgados pequenos trailers dos vários capítulos do filme (sim, ele é dividido por capítulos). Depois, veio a notícia de que seria dividido em partes 1 e 2, já que a duração total – 5 horas – poderia ser um problema para os espectadores. E, finalmente, quando estreou, fiquei receosa e esperei amigos opinarem. Ouvi que o filme era muito, muito engraçado. E ouvi também que ia querer fotografar vários diálogos e postar no instagram, o que é uma mania minha. Mas, quando eu vi, eu não achei nem muito engraçado e nem pensei em fotografar.

No início do Vol. 1, a personagem principal – Joe – é achada num beco, espancada, por um home mais velho, Selinger. Ela acorda em um quarto simples, sob o olhar preocupado dele, para quem começar a narrar toda a sua vida. Assumindo ser ninfomaníaca e uma má pessoa, ela narra as aventuras sexuais que vivenciou para justificar essa afirmativa.

Nymphomaniac

Estão nos capítulos a perda do pai, a perda da virgindade, os testes de limites quando adolescente (onde ela e a melhor amiga chegam a apostar um saco de docinhos para quem fizer sexo com mais pessoas durante uma viagem de trem), até uma auto-afirmação feminina, jogos de sedução e até mesmo amor. Enquanto Joe narra sua história, Selinger pontua os diálogos com adendos históricos e bíblicos, nunca julgando-a, sempre interessado em entendê-la, o que deixa tudo mais instigante.

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No Vol. 2, Joe está com 50 anos, é casada e mãe. E o que na adolescência ainda era descoberta, agora é tormenta. Ela não sente mais prazer, é viciada convicta, compulsiva, deliberada. Ela perde o marido, o filho, o emprego. E, como qualquer viciado, recorre ao seu anestésico preferido sem nem saber porquê, mas não consegue se conter, ter limites. A violência aparece como elemento constante e as cenas de sexo não têm tesão, são resumidas a remédio estilo tarja preta. Abismo e caos.

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Queria ter visto tudo de uma tacada só para não comparar os volumes (terminei elegendo o 1), já que essa divisão termina dividindo também o pensamento e a opinião. Mas, alguns dias depois de ter visto o vol 2, o filme ainda está na minha cabeça, levantando desde questões sobre como funciona um vício – e como alguns não são tidos como tal por muita gente -, até outros pensamentos como: “será que se o protagonista fosse homem o filme teria o mesmo peso?”

Com Nymphomaniac, Lars encerra a chamada Trilogia da Depressão – cujos primeiros “volumes” foram Antichrist (2009) e Melancholia (2011). Em todos, a musa Charlotte Gainsbourg tem papel principal.

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Crib Tanaka é carioca, formada em jornalismo e em moda, com MBA em marketing. É sócia da Vanilla, empresa focada em marketing estratégico, onde traduz algumas de suas paixões. Crib tem passagens por veículos como Reuters, Jornal do Brasil, Moda Brasil e revista Simples, além de ter colaborado com diversas iniciativas culturais, como as revistas Mosh e Jukebox e, na internet, com os sites Pessoas do Século Passado, Cronópios, Falaê!, Spamzine, Splash e Txt Magazine. Tem textos publicados nos livros: Paralelos 17 contos da nova literatura brasileira (ed. Agir) e 46 livros de moda que você não pode deixar de ler (ed. Memória Visual). Nas horas nem tão vagas, escreve contos para respirar melhor e tira fotos para registrar ângulos internos.