Deli Entrevista: Aleksandar Zaar

(Please scroll down for the original version in English)

Aleksandar Zaar é um pintor e fotógrafo nascido na Alemanha, de pais sérvios, que estudou em Londres, e que já passou por residências artísticas no Marrocos, na Índia e no México. Tivemos o prazer de entrevistá-lo pra esse artigo de hoje, em que ele traz reflexões bem interessantes sobre o que vem sendo feito em nossas sociedades em nome da chamada “segurança”. Por exemplo, por que muitos de nós nos sentimos nervosos quando passamos por postos de imigração, ainda que não tenhamos nenhum motivo pra isso? Vale realmente a pena perder a privacidade pra sentir-se seguro? Confira essas e outras na entrevista.

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– Olá Aleksandar, antes de tudo, gostaríamos de agradecer bastante por estar disponível pra essa entrevista. Fale-nos um pouco sobre sua carreira: desde quando você começou a fotografar, e como surgiu seu interesse pela fotografia?

Agradeço a vocês pelo interesse em me entrevistar.

Meu interesse pela fotografia começou nos anos 70, quando ainda era criança e encontrei um arquivo enorme com imagens dos meus antepassados, de um período de mais de cem anos. O que me impressionou foi não só como as imagens eram bonitas esteticamente, mas também o fato de que eu pude descobrir bastante sobre mim através delas – era uma espécie de foto documentário do meu passado. Descobri então a força que a fotografia pode ter.

Mas foi só no meio dos anos 90 que comecei a tirar as minhas próprias fotos. Morava em Londres nessa época, quando conheci sua vida noturna e sua loucura: clubes ilegais e underground onde todo tipo de gente se misturava – de drag queens até pessoas de colarinho branco. Todo mundo parecia se comportar como se não houvesse amanhã. Essa liberdade, aleatoriedade e intensidade me fascinaram, e eu não conseguia deixar de tentar capturar essas sensações e momentos. Depois disso, não deu pra parar. Meu trabalho fotográfico se transformou ao longo dos anos, mas posso dizer que Londres e seus clubes foram o gatilho.

– No Brasil estamos experimentando agora vários protestos em que o papel da polícia é questionado. Na sua série chamada “Security”, algum tipo de autoridade é retratada  com paisagens agradáveis e uma abordagem artística. É você aparecendo nessas fotos? Que tipo de reflexão elas pretendem trazer?

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Esse projeto começou como uma pesquisa pessoal. Em algum momento da minha vida eu percebi como ficava nervoso quando em viagens passava pela imigração, mesmo que eu não tivesse nenhum motivo pra me sentir assim. Comecei a perceber então a opressão e o desconforto que os chamados Órgãos de Segurança Pública e seus oficiais me faziam sentir, ao invés de criarem um sentimento positivo ao garantir minha segurança como cidadão.

Estudos em psicologia já mostraram que cores escuras nas roupas criam sentimentos negativos – exatamente as cores que as forças policiais e de segurança tendem a usar. Mas uma mudança de cores em seus uniformes teria um impacto real na proteção e segurança dos cidadãos ou seria uma ilusão apenas? E estamos sendo protegidos de quem em primeiro lugar?

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A quantidade de forças e medidas de segurança estabelecidas por governos vem crescendo no mundo inteiro, mas ainda assim a violência não diminui. Pelo contrário, em várias ocasiões são as autoridades que produzem a violência. Vamos pegar a Ucrânia, o Brasil ou a Venezuela como exemplos atuais – a polícia e os militares estão usando seu poder pra oprimir violentamente a liberdade de expressão e opinião dos cidadãos. O argumento é ‘estamos protegendo vocês de vocês mesmos’, o que não faz sentido.

Esse projeto tenta retratar o absurdo de todos os sistemas de segurança – da incapacidade de criar um sentimento de proteção nos cidadãos ao fato de que eles próprios estão se tornando inimigos de quem deveriam proteger. E se ao invés de investir tanto na área militar, Estados investissem em proteção ao meio ambiente?

– Você pode nos falar um pouco sobre a série “Off the top of one’s head”? Várias pessoas são mostradas carregando carrinhos de bebê, você está olhando por cima delas, mas elas estão olhando por cima dos bebês, o que traz a questão: quem olha por todos? Dessa maneira, tem algum elemento de poder ou religião nessa série?

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A série levanta a questão da privacidade e intimidade dos cidadãos. Nós temos alguma?

As imagens são tiradas por cima, sem com que as pessoas que são fotografadas notem que estão sendo observadas, assim como em uma câmera de segurança.

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Cada movimento que fazemos é controlado por governos através de empresas privadas. As informações que Telecoms têm dos seus usuários – a maioria de nós, não importando se você for Caucasiano, Asiático, Negro ou a qual religião pertence – são supostamente usadas para nossa própria segurança. Contudo, todos nós sabemos que as razões reais por trás do uso que é feito por governos e empresas de informações dos cidadãos tem mais a ver com perder o controle, manter o poder e fazer com que as carteiras deles estejam mais cheias.

Considerando que não temos a liberdade de escolher se queremos que nossos emails, chamadas telefônicas e buscas na internet sejam rastreados, ou se queremos ser filmados nas ruas, eu me pergunto – isso é realmente uma democracia? Vale a pena perder privacidade e intimidade em nome da chamada “segurança”?

 

— English version —

Aleksandar Zaar is a painter and photographer born in Germany to Serbian parents. He studied in London and had artist residencies in Morocco, India and Mexico. We had the pleasure of interviewing him for this article today, in which he brings us pretty interesting reflections about what is being done in our societies for the sake of the so-called “security”. For example, why many of us get nervous when passing through immigration controls, even having nothing to be scared of? It’s worth loosing privacy to feel safe? Check these and another questions in the interview.

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– Hello Aleksandar, first of all, we would like to thank you a lot for being available for this interview. Tell us a little about your carrer: since when you started photographing, and how did your interest on it begin?

Thanks to you for your interest in interviewing me.

My very first interest in photography began in the 70’s, when still being a child I found a huge archive of images of my ancestors from a period of more than a hundred years. What amazed me was not only how aesthetically beautiful the images were but also the fact that I could discover a lot about myself through them- it was a sort of photo documentary of my past. I then discovered how powerful photography can be.

However, it wasn’t until the mid 90s when I started taking photos of my own. I was living back then in London, where I discovered its night life and its craziness: illegal underground clubs where all kind of characters- from drag queens to “white collar” people- would mingle. Everyone seemed to behave as if there was no tomorrow. This freedom, randomness and intensity fascinated me and I couldn’t stop myself from trying to capture those moments and sensations. After that, I couldn’t stop. My photographic work has transformed over the years though, but I can say that London and its clubs were the trigger.

– In Brazil we’re experiencing now many demonstrations in which the role of the police is being questioned. In your series called “Security”, some sort of authority is portrayed with nice landscapes and an artistic approach. Is it you performing in these photos?! What kind of reflections they intend to bring us?

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The “Security” project began as a personal research. At some point in my life I realized how nervous I would get passing through borders when travelling, even if I had nothing to be scared of. I then became aware of the oppression and discomfort that the so-called Law Enforcement or Peace-Officers made me feel, instead of creating a positive feeling by ensuring my security as a citizen.

Studies in psychological literature have shown that dark colours in dress code create negative feelings- exactly the colours that police/security forces tend to wear. But, would the change of colours in their uniforms have a real impact in the protection and security of citizens or would it just be an illusion? And, who are we being protected from in the first place?

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The amount of “security forces” and “security measures” established by governments is increasing all over the world and yet the violence doesn’t decrease. On the contrary, in many occasions it is the authority forces that produce the violence. Let’s take Ukraine, Brazil or Venezuela as current examples- the police and military are using their power to violently oppress the freedom of speech and opinion of citizens. Their argument is “we are protecting you from yourselves” which is a non-sense.

This project tries to depict the absurdity of the whole “security” systems- from the failure to create a feeling of protection on the citizens to the fact that they, themselves, are becoming the enemies of their supposedly protégés. What if instead of investing so much in military, States would invest more in protecting the environment?

– Can you tell us a little about your “Off the top of one’s head” series? Many people are shown carrying strollers, you are looking off the top of their heads, but they, in turn, are looking over the babies, which begs the question: who looks over everyone? In this sense, are you addressing power or religion in that series?

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This series raises the question of privacy and intimacy of citizens. Do we have any?

The images are taken from above, without the targeted people noticing that they are being watched, just like on a CCTV camera.

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Every move we make is controlled by governments through private companies. The information that Telecoms have of their users- most of us, no matter whether you are Caucasian, Asian, Black or which religion you belong to- is supposedly being used for our own “security”. Nevertheless, we all know that the real reasons behind the use of citizens’ information by governments and private companies has more to do with not loosing control and keeping the power as well as making their wallets fatter.

Considering that we don’t have the freedom to choose if we want our emails, phone calls, searches on the internet tracked or whether we want to be filmed on the streets, I ask myself- is this really a democracy? Is it worth to loose privacy and intimacy for the sake of the so-called “security”?

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Brasileiro residente em Berlim. Viciado em música, arte e futebol. Coautor do livro 'D4', de contos e poesias, publicado pela Editora Multifoco, e Marketing Campaign Manager na empresa upday.com