HER – Quando “ELA” é um sistema operacional

A câmera segue constantemente o rosto de Joaquim Phoenix, criando uma subversão ao conceito tradicional de um filme futurista. Ao contrário do que esperávamos e filmávamos, as principais alterações tecnológicas são cada vez menores e mais próximas. A arquitetura libertária tem uma presença forte no filme – onde Xangai serve como Los Angeles em 2025 – mas serve como coadjuvante perante a relação intimista, subjetiva e profundamente pessoal de Theodore.

Her evoca dramas contemporâneos no campo das relações sociais, principalmente as amorosas.

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Phoenix está mais uma vez brilhante como o solitário e nerd escritor que tenta superar o rompimento com sua ex-mulher e passa a se encantar com o Sistema Operacional que conta com a voz sensual, convidativa e calorosa de Scarlet Johansson. Como sabemos depois de décadas e décadas de filmes de animação e dublagem, a voz é uma das formas de atuação, sendo que alguns consideram ainda mais difícil ainda – pois tem que se transmitir as emoções sem a presença física. Dito isso, Johansson comprova ser uma das melhores atrizes de sua geração, transformando sua Samantha numa presença real e completamente de acordo com a ideia do filme.

O filme nos joga em uma realidade altamente factível, com todo o pleonasmo do mundo vos digo: é tendência. Por mais prostituído que seja o termo, não há outra definição. Real, fato.

Imaginem o papo no botequim dos “homens femininos”:

– Uma mulher de classe, educada, toda minimalista e altamente responsiva. 

– Vai fundo, irmão. Essa é a mulher pra você!

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A moda um dia vai ser traçar a sua pequena, ou o seu “bofe” na condição O.S.(sistema operacional). Fico imaginando a corrida dos desenvolvedores de sistema para aperfeiçoar os funcionalidades de vossos amados.  Mais interessante ainda seria o processo de rompimento com a lógica, digna de nossa incoerência, instabilidade emocional e tantas outras irregularidades. Quem regula?

Infelizmente o filme vez ou outra faz as temidas concessões americanas, como a necessidade de uma conclusão para a situação e a ameaça de um romance “feliz” entre as personagens de Joaquim Phonenix e Amy Adams, mas elas não estragam o longa. Jonze consegue dissecar bem a existência de Theodore, em sua pequena rotina cercado por todas as pessoas que passam em sua volta, mas são apenas figurantes de sua existência.

Dá até vontade de “tag” os amigos que andam pelas ruas de olho e cara nas telas, emborcados em vossos telemóveis. Principalmente na cena em que ele percebe que sua amada não é tão exclusiva e silgular. É Multifacetada, essa vadia!

Em um mundo dominado por estas experiências pessoais é de se esperar que a trilha sonora consiga sintetizar bem o mundo de Theo (não por coincidência Deus em grego) e o diretor confiou esta tarefa aos seus parceiros de longa data do Arcade Fire, com duas belas músicas de Karen O.

Alta identificação. Jonze promove um encontro com nossas figuras projetadas em espaço/ tempo não tão distante. Agarre seu device e se perca de vez nas relações palpáveis. Fast Foward para a desilusão, não temos tempo a perder. Vide os dates virtuais que emulam a superficialidade atual potencializada com a “praticidade” recém adquirida.

Mateus Nagime + Sérgio Barbosa

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Acordamos inspirados para mais um dia de trabalho, ainda que não seja dia útil. O nosso compromisso não tem hora marcada. Não estamos em nenhuma zona de fuso-horário. Fazemos o nosso próprio tempo. O produto do nosso trabalho é não perecível, atemporal, mas sem condimentos. Originais da nossa safra, inspirado nos nossos dias.