A imoralidade louvável de Scorsese

wolf of wall street scorsese

Não sei se vocês leram as polêmicas que cercaram a exibição do novo Scorsese no Cinema da Academia de Ciências e Artes Cinematográficas (a AMPAS, aquela que dá os prêmios do Oscar). Depois de uma galera ter saído da sala, uns velhinhos começaram a xingar Marty e seus colegas de crime: o filme seria, na visão desse povo todo uma celebração de drogas e comportamentos imorais. A tal da f word (ainda bem que podemos contar que é fuck) é dita mais de quinhentas vezes bateu com folga o recorde do igualmente polêmico Scarface (onde seriam 182 citações – daí aquela banda das antigas, Blink 182).

Mas o interessante é que o cineasta e Leonardo DiCaprio, o protagonista do filme, saíram em defesa da moralidade e dos bons costumes: o filme empregava tantas cenas de sexo, consumo de drogas e xingamentos para justamente condenar este tipo de comportamento. É um pouco o que a galera tinha que fazer na primeira metade do século para exibir material arriscado, por uma lição de moral no final. Óbvio que nunca colou muito isso e hoje os filmes ainda correm o risco de serem tidos como moralistas e postos de lado.

De qualquer maneira, desta vez, deu certo: O Lobo de Wall Street entrou nas categorias principais: filme, direção, ator, roteiro adaptado e ator coadjuvante (Jonah Hill). E Scorsese não precisa carregar nenhum tipo de fardo, e nem dar uma de Oscar Wilde e alegar a amoralidade das artes: o filme é completamente imoral e tem pleno orgulho disso. É uma característica bem em falta – infelizmente –  no audiovisual (cinema, tv, etc) contemporâneo, especialmente o norte-americano.

leonardo dicaprio

A escolha de iniciar o filme em 19 de outubro de 1987 não é acidental. Naquele dia, o primeiro de Jordan Belfort (DiCaprio) em uma grande corretora de Wall Street, os valores das ações despencaram e ele é demitido. Mas no que poderia ser considerado o início de um declínio, ele enxerga uma oportunidade de ficar milionário. Como o experiente profissional, interpretado por Matthew McCounaughey diz, o mercado de ações é feito para enriquecer uns poucos profissionais e é nesta lógica devassa e tentadora que Scorsese piamente acredita.

Após um período promissor, no início dos anos 1990, a época politicamente correta, tudo começa a desmoronar. Confesso que fico um pouco no escuro se o filme chega a ser um comentário mais profundo sobre os anos Clinton, dúvida que será respondida no documentário (aparentemente elogioso) que ele está dirigindo para a HBO sobre o ex-presidente americano.

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É um filme nostálgico no bom sentido. Scorsese se pergunta em todo o momento onde estão estas pessoas malucas, com gana de viver, atrás de emoções e um presente espetacular, sem pensar muito no futuro. Decisões lógicas não fazem parte do cotidiano das personagens, e isto é retratado perfeitamente pela direção e montagem de Thelma Schoonmaker, bem louca várias vezes, mas justamente nos momentos em que as personagens estão sob o efeito de (muito) álcool e (muitas, muitas, muitas) drogas. Ela já foi bem criticada por aí, mas creio que é um pouco ao estilo das fotografias mal compreendidas de Gordon Willis nos anos 1970 e ainda será objeto de muito estudo.

Cuidado com os spoilers, caro leitor. Se ainda não viu o filme e se importa com detalhes de narrativa (mesmo num filme baseado em fatos reais…), pule este parágrafos ou melhor, salve a página, vá ver o filme correndo e volte aqui! Mas vamos lá pensar no final do filme: Ok, Belfort se empolga, não sabe parar na hora certa e vai preso, tendo ainda que delatar todos os seus amigos. Não parece em nada um final feliz. Mas, sinceramente? Como a própria personagem repetidamente diz (e o filme reforça) não existe amizade entre corretores, tudo não passa de negócios. A única pessoa com quem ele simpatizava (Donnie) o entregou para o FBI. No final, ele termina poucos anos numa prisão super liberal, e continua com muito dinheiro e uma vida boa de palestrante, autor de livro, etc. O crime, sim, compensa e é celebrado pelo filme.

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Scorsese tem uma visão muito fatalista, a de que hoje num mundo muito certinho e retrógrado, não existem mais homens interessantes como Jordan. Não é a toa que o cineasta quase nunca filma no presente desde os anos 1980, ou quando o faz são visões muito pessimistas do mundo e de seus habitantes, como em Os infiltrados e Vivendo no Limite.

É um filme que também reforça sua relação com Leonardo DiCaprio, quinta parceria praticamente consecutiva do diretor em longas de ficção (a exceção sendo Hugo, que é protagonizado por crianças), e atingindo sua melhor atuação de todos estes longas, se não da carreira (também tenho uma queda forte por J Edgar e Django Livre). E até fui conquistado por Jonah Hill, um ator que geralmente não desce muito bem em mim. É, definitivamente, um filme para ficar na história.

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Formado em cinema depois de passagens por direito e jornalismo, trocou o stress dos sets de filmagem pela luta diária e contínua da preservação audiovisual. Tenta viajar pelo menos uma vez por mês, nem que seja por meios alternativos (leia-se: música e cinema), tentando sempre explorar novos lugares e desafios. Fã de tênis, rúgbi (mais pelos jogadores...), judô, natação e de todos esportes olímpicos, evitando qualquer patriotismo patotado, curte de tudo, de pintura a política, mas são as músicas e filmes que costumam mudar sua vida diariamente. Tenta atualizar com certa infrequência os vários blogs que mantém e os muitos projetos que inicia, como escrever, pintar, fazer colagens e fotografar. Possui o poder de transformar tudo numa lista de melhores.