Lulu, likes, grupos de WhatsApp e Trending Topics: a internet faliu

Lulu

Avalia-se um livro, um hotel, um fogão, um show. A possibilidade de avaliar vem com a dupla função de permitir às pessoas expressar suas opiniões e, ao fazer isso, de ajudar os outros na hora de decidir sobre consumir alguma coisa. Pode-se avaliar também as próprias pessoas, o que ocorre, de maneira mais frequente, no campo profissional. A sua força de trabalho é uma mercadoria, a ser melhor ou pior apresentada no LinkedIn; a ser mais ou menos incensada pelas indicações do networking; a ser, enfim, comprada ou descartada pelos detentores dos meios de produção. As avaliações influenciam nas forças de oferta e demanda, que determinam o preço. Com o Lulu, as características afetivas e sexuais dos homens foram igualmente objetificadas, precificadas e colocadas na vitrine. As mulheres que o usam e o levam a sério rebaixam-se ao nível que os homens sempre estiveram, e que até hoje lutam (ou não) pra sair. Desenvolvimentos naturais do Lulu são o “Reclame Aqui” do sexo e o “FriendzApp”, que vai colocar as qualidades no quesito amizade também sujeitas a avaliação. Tudo tem seu preço.

Likes

Inclusive o conteúdo que você posta em redes sociais. A quantidade de likes e shares que seu comentário recebe no Facebook nada mais é do que um mecanismo de avaliação, de precificação; é uma medida coletivamente construída do valor dele.

Grupos de WhatsApp

Um de nossos colaboradores falava, no artigo Detox Digital, que estamos passando por uma fase de êxtase com as possibilidades criadas pelas novas tecnologias, mas que apesar desse furor da empolgação inicial, essa velocidade e essa intensidade de uso seriam insustentáveis a longo prazo. Não apenas concordo, mas acho que existem bons motivos pra acreditarmos que esse ponto de saturação já chegou – e que o WhatsApp seja um dos grandes responsáveis por isso.

Se seis meses atrás as pessoas estavam incluídas em, digamos, dois grupos de conversa, hoje esse número triplicou – é o grupo dos amigos de infância, dos amigos de faculdade, dos amigos de bar, do pessoal do trabalho, dos primos, dos tios, e por aí vai. Mas não há como participar de todas as conversas sem que haja perdas em vários sentidos – e muitos estão começando a senti-las.

Usar o WhatsApp enquanto come ou enquanto se fala (pessoalmente) com outras pessoas, por exemplo, é um tipo de atitude que já foi mais bem aceita. Outros fatores dizem respeito à frustração de não poder acompanhar o que se passa e, principalmente, ao nível de diálogo que se estabelece. Há uma perda qualitativa que está começando a fazer efeito. Pelo uso do app vir sempre acompanhado de outra atividade, as respostas que ali são dadas vêm naturalmente acompanhadas de uma falta de atenção – é o responder por responder, pra comparecer de alguma forma. Depois de uma piada de humor duvidoso, o que se vê são cinco pessoas dando a mesma resposta: “kkkkkkkkkk”. E então a sexta pessoa, pra ser um pouco original, vai e coloca uma série infame de emoticons.

Trending Topics

Hoje (26/11/2013) de manhã, um dos Trending Topics do Twitter era #RockECulturaFunkETortura. Nada como uma falsa disputa pra entreter um dia chuvoso. Nada como exercer o direito inalienável de estereotipificação.

rock-eh-cultura-funk-eh-tortura

E pra não ficar barato, essa hashtag teve como resposta a genial #UmBrasilSemRockÉUmBrasilBonito.

um-brasil-sem-rock-eh-um-brasil-bonito

A internet faliu

O que se passa em datas comemorativas ou quando alguém morre é um fenômeno à parte. O acontecimento em questão merece alguns segundos de atenção em conversas pessoais e mais outros segundos na televisão; nos jornais algumas linhas, ou uma página. Na internet a coisa é amplificada de tal maneira que parece ser proibido tratar de outro assunto no dia. O dia inteiro é dedicado a comentários, fotos e vídeos relacionados ao tema. Soma-se a isso o fato de que o Facebook não é mais um meio de interagir com pessoas, mas de construir reputação, e pronto. A internet faliu. Mas sim, há o outro lado, há salvação. Ou não.

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Brasileiro residente em Berlim. Viciado em música, arte e futebol. Coautor do livro 'D4', de contos e poesias, publicado pela Editora Multifoco, e Marketing Campaign Manager na empresa upday.com