Pedir desculpa por ter sorte é malandragem de tenista.

Existe uma cena clássica que acontece ao menos uma vez em quase todo jogo de tênis: um jogador ataca a bola, que bate no topo da rede e sobe. Segue-se um segundo de mistério, até sabermos em qual lado da quadra a bola vai cair.

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Se a bola cai no lado do adversário, geralmente quem atacou faz o ponto, já que ao esbarrar na rede, a trajetória e o tempo da bola são drasticamente mudados, fazendo com que o oponente não tenha como reagir.

Depois disso acontece algo completamente peculiar, sem paralelo com qualquer outro esporte ou situação da vida: quem (ganha) faz o ponto pede desculpa, porque, em teoria, a sorte influenciou no desfecho.

Alguém imagina que um jogador de futebol peça desculpa ao adversário após chutar aquela bola que bate no zagueiro, engana o goleiro e entra? Ou que alguém ganhe na mega-sena e se desculpe com o vizinho pobre por causa disso?! Pedir desculpa por ter sorte é quase recusar a sorte – parece meio bizarro.

Diria que esse hábito dos jogadores de tênis tem algo de arrogância e muito de malandragem. Porque no caso específico de a bola cair de um lado ou outro da quadra, isso depende pouco ou quase nada do acaso.

Quanto mais no alto da rede a bola esbarrar, mais chance ela terá de cair no lado adversário. E uma bola atacada próxima à rede é quase sempre o que os tenistas buscam, ou seja, isso tem a ver com competência. Inversamente, quando a bola encosta na parte mais baixa da rede, a chance dela morrer no próprio lado da quadra é maior. Tem a ver com incompetência dessa vez.

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No meio de toda essa filosofia barata impossível não lembrar de Match Point, filme de Woody Allen que teve seu roteiro construído a partir da analogia com essa cena do tênis. Quase no final do filme (alerta de spoiler desnecessária), Chris, o “vilão” e personagem principal, tenta arremessar no rio um anel, que seria a última prova do crime a ser eliminada. Mas o anel bate na “rede”, sobe e acaba caindo na calçada. O que seria azar do protagonista revela-se o lance que irá salvá-lo quando um mendigo encontra o anel e o carrega consigo. O mendigo é depois encontrado com o anel e apontado, assim, como o responsável pelo crime.

O fato é que ao pedir desculpa apenas na ocasião mencionada, os tenistas passam a impressão de que a sorte, além de não ser bem-vinda, é um elemento alienígena ao jogo. Cria-se assim a ilusão de que todos os outros lances aconteceram de propósito.

Quer dizer então que aquelas bolas “milagrosas” na linha, e aqueles aces incríveis que nem o juiz viu, tudo isso foi minimamente calculado?! É claro que não. Mas é desta maneira que os tenistas invertem as coisas: lances de sorte que acontecem com mais frequência são tratados como propositais, e um lance específico que mais envolve competência é tratado como sorte.

E depois jogador de futebol que é malandro.

CJ

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Brasileiro residente em Berlim. Viciado em música, arte e futebol. Coautor do livro 'D4', de contos e poesias, publicado pela Editora Multifoco, e Marketing Campaign Manager na empresa upday.com